No dia 26 de março de 1926 nascia, em Franca, no interior de São Paulo, o engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, responsável por uma das iniciativas mais marcantes da indústria automobilística nacional. Cem anos depois de seu nascimento, Gurgel é lembrado como o criador de uma das poucas marcas brasileiras de automóveis, fundada com o objetivo de desenvolver veículos com tecnologia própria no país.
Desde jovem, Gurgel demonstrava interesse em produzir um carro popular nacional. Ainda estudante da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, ouviu de um professor que “automóvel não se constrói, se compra”. A frase não o afastou da ideia de desenvolver veículos adaptados à realidade brasileira.
Após se formar, ele recebeu uma bolsa de estudos da General Motors nos Estados Unidos. Durante esse período, teve contato com novas tecnologias automotivas, incluindo o uso da fibra de vidro, material que posteriormente seria aplicado em projetos de veículos no Brasil.
Criação da Gurgel Motores
Antes de iniciar a fabricação de automóveis, Gurgel criou a empresa Moplast, dedicada à produção de peças em acrílico e fibra de vidro. A partir dessa iniciativa, passou a desenvolver karts e veículos motorizados para crianças, conhecidos como Gurgel Jr., apresentados no primeiro Salão do Automóvel do Brasil, em 1960.
Em 1964, abriu uma concessionária Volkswagen chamada Macan, experiência que ajudou a aproximá-lo da indústria automotiva. A parceria com a montadora alemã permitiu que Gurgel recebesse um chassi para desenvolver um veículo próprio. O resultado foi o Macan-Gurgel 1200, posteriormente rebatizado de Ipanema, considerado o primeiro buggy produzido no Brasil.
O sucesso do projeto incentivou a criação da Gurgel Motores S.A., fundada em 1969. Entre os veículos lançados pela empresa, destacou-se o modelo Xavante, mais tarde chamado de X-12, um dos automóveis mais conhecidos da marca.
Fábrica em Rio Claro e projetos inovadores
Em 1975, Gurgel inaugurou uma fábrica em Rio Claro, no interior paulista. A cidade se tornaria um dos principais polos da produção da marca.
Na mesma década, o engenheiro apresentou projetos pioneiros de mobilidade elétrica. Um deles foi o protótipo E-150, desenvolvido nos anos 1970 como uma das primeiras experiências de veículo elétrico nacional. Pouco tempo depois, a empresa lançou o Itaipu, considerado um dos primeiros carros elétricos produzidos no Brasil.
Nos anos 1980, Gurgel continuou investindo nesse tipo de tecnologia e desenvolveu o E-400, um veículo elétrico utilitário voltado a atividades urbanas e industriais.
A ideia de criar um veículo popular totalmente nacional se concretizou em 1987 com o lançamento do BR-800. O modelo utilizava um motor de dois cilindros desenvolvido pelo próprio engenheiro, chamado Enertron, com 800 cm³ e 36 cavalos de potência.
Crise e encerramento da empresa
No início da década de 1990, mudanças na política econômica brasileira afetaram o setor automotivo. A abertura do mercado para veículos importados e alterações em incentivos fiscais reduziram a competitividade da fabricante nacional.
Com dificuldades financeiras e endividamento, a Gurgel Motores encerrou suas atividades em 1994, após produzir cerca de 7 mil unidades do BR-800 e aproximadamente 40 mil veículos ao longo de sua história.
Últimos anos
João Gurgel faleceu em 30 de janeiro de 2009, aos 83 anos, em decorrência de complicações da doença de Alzheimer. Nos últimos anos de vida, acompanhou à distância o fim da empresa que havia criado.
Apesar das dificuldades enfrentadas pela marca, o engenheiro permanece como um dos nomes associados à tentativa de desenvolvimento de uma indústria automotiva com tecnologia nacional.
Documentário resgata história da marca em Rio Claro
A trajetória de João Gurgel também é retratada no documentário “Gurgel e o Sonho da Cidade Azul”. O longa-metragem reúne depoimentos de ex-funcionários, pesquisadores e colecionadores que reconstroem a história da fábrica instalada em Rio Claro e a importância da empresa para a cidade.
Com 113 minutos de duração, o filme foi dirigido pelo cineasta Iberê Santos, que viveu a infância em Rio Claro e decidiu investigar a história da fábrica que marcou a cidade, sendo realizado em parceria com o Grupo Rio Claro SP.
A produção teve exibição especial no Centro Cultural e Shopping Rio Claro e também deverá integrar a programação do Museu de Rio Claro. Atualmente, o documentário está em fase de comercialização para ser adaptado como uma minissérie documental de quatro episódios em uma plataforma de streaming.
Além disso, os responsáveis pela produção estão organizando uma exposição especial com materiais pesquisados para o filme, que será apresentada no Museu Amador Bueno, em Rio Claro. O espaço será inaugurado no dia 30 de maio, com a presença de veículos da marca Gurgel e a exibição do documentário ao público.



