Os acidentes com serpentes que demandam atendimento médico representam um relevante problema de saúde pública no Brasil, sobretudo em áreas rurais, regiões de mata, trilhas, rios e cachoeiras. A ocorrência desses casos está diretamente relacionada a fatores ambientais e climáticos, com aumento significativo durante períodos mais quentes e chuvosos, quando há maior atividade das serpentes e intensificação das atividades humanas ao ar livre.
Processos como desmatamento, expansão urbana desordenada e mudanças climáticas também contribuem para o aumento do contato entre humanos e serpentes. Pela sua relevância epidemiológica e toxicológica, os acidentes ofídicos exigem atendimento imediato, manejo clínico adequado e, em muitos casos, a administração de soro antiofídico, fornecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (Sistema Único de Saúde).
O SUS mantém uma rede estruturada de vigilância, atendimento de urgência e distribuição de antivenenos em unidades de referência espalhadas por todos os estados brasileiros. Essa estrutura garante o atendimento oportuno às vítimas e segue protocolos nacionais baseados em evidências científicas e diretrizes de saúde pública.
Caso recente no sul da Bahia
Um episódio registrado recentemente no sul da Bahia chamou atenção pela gravidade. Uma turista sofreu um acidente com serpente peçonhenta na Cachoeira do Tijuípe, no distrito de Serra Grande, município de Uruçuca, entre Ilhéus e Itacaré. Segundo informações divulgadas pela imprensa local, a vítima foi internada em estado grave e, após evolução clínica complexa, teve um dos membros inferiores amputado.
Casos com desfechos graves costumam estar associados a uma combinação de fatores, como grande quantidade de veneno inoculado, gravidade da picada, local do corpo atingido, tempo prolongado entre o acidente e o atendimento especializado, manejo inicial inadequado e falhas no atendimento médico.
Por outro lado, a maioria dos acidentes evolui de forma favorável, especialmente quando há atendimento rápido, identificação precoce da gravidade, ausência de práticas caseiras ou alternativas e administração oportuna do soro antiofídico.
Prevenção e orientação à população
Especialistas ressaltam que, apesar da gravidade do caso ocorrido na Bahia, ele deve ser compreendido como um evento raro. A experiência brasileira no manejo de acidentes com serpentes demonstra que, quando o atendimento segue protocolos adequados, a maioria das vítimas não apresenta sequelas permanentes.
Do ponto de vista preventivo, a redução do risco depende de medidas específicas. Trabalhadores rurais devem utilizar equipamentos de proteção individual, como botas de cano alto e perneiras, além de receber capacitação contínua. Para turistas e visitantes de áreas naturais, recomenda-se o uso de calçados fechados, atenção redobrada ao caminhar por trilhas e evitar colocar mãos ou pés em locais como frestas, pedras ou troncos.
Em qualquer situação, ao avistar uma serpente, a orientação é manter distância e não tentar capturá-la ou manipulá-la. Ações de educação em saúde, sinalização adequada, manejo ambiental responsável e fortalecimento da vigilância ambiental também são fundamentais para reduzir a ocorrência desses acidentes.
O texto foi elaborado por pesquisadores vinculados à Universidade Estadual Paulista, reforçando a importância da integração entre políticas ambientais, turísticas e de saúde pública para a prevenção sustentável dos acidentes ofídicos.
Por Dr. Thiago Salomão de Azevedo, pós-doutorando Guedes Lab/UNESP
Dra. Thais Barreto Guedes, coordenadora Guedes Lab/UNESP



