Uma pesquisa recém-publicada com participação de cientistas ligados ao Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), sediado na Unesp de Rio Claro (SP), mostrou que fatores bióticos e abióticos influenciam diretamente a diversidade de cores das flores no campo rupestre. Os resultados foram divulgados em janeiro na revista científica American Journal of Botany.
O estudo, intitulado “A mosaic of colors: The influence of biotic and abiotic factors shaping flower color diversity across a tropical mountain ecosystem”, analisou como elementos vivos, como plantas e polinizadores, e fatores ambientais, como temperatura, luz solar, vento e solo, moldam o mosaico de cores em um ecossistema tropical de montanha.
A pesquisa foi realizada na Serra do Cipó, no extremo sul da Cadeia do Espinhaço, em Minas Gerais. Ao todo, foram avaliadas 179 espécies de plantas com base tanto na percepção humana quanto na visão dos polinizadores. O trabalho é considerado pioneiro por realizar uma análise quantitativa da cor das flores ao longo de um gradiente altitudinal tropical.
O campo rupestre é caracterizado por vegetação que se desenvolve em topos de serras e chapadas do Cerrado, com presença marcante de afloramentos rochosos. Trata-se de um ambiente altamente diverso, estruturado por diferentes tipos de vegetação influenciados principalmente pelas condições do solo e pela altitude.
A polinização por abelhas é predominante nesse ecossistema, seguida por beija-flores e outros insetos. A cor das flores desempenha papel central na atração desses polinizadores, funcionando como um importante canal de comunicação visual entre plantas e animais.
Os pesquisadores avaliaram a variação das cores das flores em cinco altitudes distintas — 824, 1101, 1255, 1303 e 1421 metros — considerando também variáveis ambientais como temperatura média anual, umidade do ar, velocidade do vento e radiação solar, além dos diferentes tipos de vegetação presentes na região.
Os resultados indicaram que a maioria das categorias de cores diminui nas altitudes mais elevadas, com exceção das tonalidades azul-esverdeadas e verde-UV, que aumentaram nesses locais. As cores rosa, amarelo e branco foram as mais frequentes no campo rupestre, padrão semelhante ao observado em outras comunidades tropicais e associado à predominância da polinização por abelhas.
Apesar das variações ao longo do gradiente altitudinal, a diversidade geral de cores das flores permaneceu elevada em todas as altitudes e tipos de vegetação analisados. Diferentemente do que ocorre em montanhas de clima temperado, onde a diversidade tende a diminuir com o aumento da altitude, o campo rupestre tropical mantém alta diversidade de cores mesmo em áreas mais elevadas.
Segundo os pesquisadores, isso pode estar relacionado ao fato de que, embora variáveis, as condições ambientais não são extremas, já que se trata de um sistema montanhoso tropical sem ocorrência de neve.
O estudo aponta que o campo rupestre representa um ecossistema singular, com grande diversidade de cores florais e capacidade de sustentar importantes polinizadores ao longo de sua ampla distribuição.
O artigo completo pode ser acessado pelo DOI: 10.1002/ajb2.70147.



