Uma mãe lobo-guará acompanhada de três filhotes foi avistada na região da Estação Ecológica Barreiro Rico, entre os rios Piracicaba e Tietê, no interior de São Paulo. O registro chama a atenção por mostrar a reprodução de uma espécie ameaçada de extinção em uma área que mantém oito anos sem registros de incêndios florestais.
A região é acompanhada pela Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil). Na Área de Proteção Ambiental (APA) Barreiro Rico, os avistamentos de lobos-guarás vêm aumentando nos últimos anos. Desde 2020, mais de dez animais foram registrados em diferentes pontos da região.
Maior canídeo da América do Sul, o lobo-guará tem pernas longas, focinho estreito e pelagem avermelhada. Apesar de ser associado principalmente ao Cerrado, também circula por paisagens rurais, incluindo plantações de laranja, eucalipto e cana-de-açúcar, além de áreas de pastagem.
O registro de uma fêmea com três filhotes evidencia a presença da espécie e a importância dos ambientes naturais que ainda permitem sua circulação e reprodução. A proximidade com estradas e atividades humanas, porém, representa riscos, principalmente de atropelamentos.
“Esse registro reforça a esperança na conservação da espécie, mas também a importância de redobrar os cuidados para evitar atropelamentos de animais silvestres nas estradas que cortam ou ficam próximas às áreas naturais”, afirma João Marcelo, gestor da Estação Ecológica Barreiro Rico.
Lobo-guará contribui para o equilíbrio ambiental
A alimentação da espécie inclui frutos, como os da lobeira e da palmeira-jerivá, além de pequenos mamíferos, aves e répteis. Ao consumir frutos e dispersar sementes por meio das fezes, o lobo-guará contribui para a regeneração da vegetação e para a manutenção dos processos ecológicos.
Entre as principais ameaças à espécie estão a perda e a fragmentação de habitats, os atropelamentos, a caça e a exposição a doenças transmitidas por animais domésticos.
Sarna sarcóptica, cinomose e parvovirose canina estão entre os riscos sanitários. A prevenção inclui vacinação de cães, guarda responsável e controle do acesso de animais domésticos às áreas protegidas.
Segundo Rodrigo Campanha, gestor da Estação Experimental de Itirapina da Fundação Florestal, o tratamento de lobos-guarás exige avaliação especializada e exames para identificar possíveis agentes infecciosos ou parasitários.
Região completa oito anos sem incêndios florestais
Outro destaque da região de Barreiro Rico é a prevenção de incêndios. Segundo a gestão da unidade, não há registros de incêndios florestais desde 2018. O resultado é atribuído ao trabalho conjunto da Fundação Florestal, órgãos públicos e privados, brigadas e proprietários rurais.
Entre as medidas adotadas estão a implantação de aceiros, o patrulhamento e a mobilização local. O último incêndio registrado ocorreu em 2018, enquanto o episódio mais devastador na região foi em 2012.
A educação ambiental também integra as ações, com projetos como “Barreiro Rico na Escola” e “Barreiro Rico na Praça”, além de palestras e oficinas.
Outra iniciativa busca reduzir atropelamentos de animais silvestres. Em 2024, foi concluída uma travessia aérea para o muriqui e outras espécies sobre a via identificada pela gestão como AHB171, conectando a Estação Ecológica à floresta da Fazenda Bacury.
Mais de 3 mil registros de lobos-guarás em áreas protegidas
Dados do Monitora BioSP mostram a ocorrência da espécie em diferentes regiões do estado. Entre 2022 e 2025, o levantamento contabilizou 3.062 registros e 3.081 ocorrências de abundância de lobos-guarás em áreas protegidas pela Fundação Florestal incluídas na base de dados.
Entre os locais com maior número de registros estão a Estação Ecológica de Itirapina e a Estação Experimental de Itirapina, com 1.392 registros. A Estação Ecológica Jataí e a Estação Experimental de Luiz Antônio somaram 831, enquanto a Reserva Biológica de Mogi-Guaçu teve 168.
Os números permitem acompanhar a ocorrência da espécie e orientar ações de pesquisa e conservação, mas não representam uma estimativa do total de lobos-guarás existentes no estado.
Área protegida reúne grande diversidade de espécies
A região de Barreiro Rico está localizada entre os rios Tietê e Piracicaba e abriga duas unidades de conservação estaduais: a Estação Ecológica Barreiro Rico, criada em 2006, e a APA Barreiro Rico, criada em 2018.
A Estação Ecológica, de proteção integral, possui pouco menos de 300 hectares. Já a APA, de uso sustentável, abrange pouco mais de 30 mil hectares. O território inclui áreas de Piracicaba, Botucatu, São Pedro e Anhembi.
A paisagem reúne plantações de cana-de-açúcar, eucalipto, citros e mandioca, pastagens, matas ciliares e grandes fragmentos florestais. Entre os remanescentes está uma área de mais de 1.500 hectares, onde ficam a Estação Ecológica e áreas de Reserva Legal associadas à antiga Fazenda Barreiro Rico.
Segundo dados fornecidos pela gestão da unidade, o conjunto florestal abriga mais de 37 espécies de mamíferos, incluindo cinco espécies de primatas e quatro de felinos, além de mais de 200 espécies de aves, mais de 30 espécies de anfíbios e répteis e mais de 500 espécies de plantas.
Entre as árvores encontradas na região estão jatobás, guarantãs, perobas, guaritás, canelas, ipês e copaíbas, além das palmeiras jerivá e juçara.
A presença da mãe lobo-guará com seus três filhotes reforça a importância da conservação dos remanescentes naturais e da conexão entre os ambientes protegidos e as áreas rurais para a sobrevivência da fauna paulista.



