Um medicamento experimental desenvolvido para investigar processos associados à doença de Parkinson apresentou resultados promissores em um estudo internacional de fase 2. O SNT-4728 foi testado em 41 pessoas com um distúrbio do sono relacionado ao risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. Os pesquisadores observaram melhora em avaliações motoras e redução de sinais de inflamação cerebral em parte dos participantes tratados.
Os resultados foram divulgados em outubro de 2026 por pesquisadores da Austrália e do Reino Unido. Apesar dos achados, ainda não há comprovação de que o medicamento seja capaz de prevenir o Parkinson ou interromper sua progressão.
Como foi realizado o estudo
A pesquisa contou com 41 voluntários. Desse total, 30 receberam o SNT-4728 e 11 tomaram placebo, uma substância sem princípio ativo terapêutico. O tratamento foi realizado uma vez ao dia durante 12 semanas.
Os participantes tinham transtorno comportamental do sono REM isolado, conhecido pela sigla iRBD. A condição pode fazer com que a pessoa se movimente, fale ou reaja fisicamente durante o sono, como se estivesse representando os próprios sonhos.
O distúrbio está associado a um risco elevado de desenvolver Parkinson e outras doenças neurodegenerativas. Segundo a Parkinson’s UK, aproximadamente sete em cada dez pessoas com essa condição recebem diagnóstico de Parkinson em até 15 anos.
Durante o estudo, os voluntários passaram por avaliações de movimento, memória, raciocínio, sono e qualidade de vida, além de exames cerebrais.
Pesquisadores identificam redução da inflamação cerebral
Entre os 30 participantes que receberam o medicamento, 20 apresentaram redução de marcadores de inflamação em uma região cerebral chamada putâmen, envolvida no controle dos movimentos.
Essa área participa de circuitos cerebrais relacionados a funções motoras. Alterações nesses circuitos estão associadas a manifestações do Parkinson, como tremores, rigidez muscular e lentidão dos movimentos.
Os pesquisadores também identificaram melhora nos indicadores motores do grupo tratado em comparação com o grupo que recebeu placebo. A diferença foi estatisticamente significativa em uma avaliação realizada 12 semanas após o encerramento do tratamento.
Por outro lado, não foram observadas diferenças relevantes entre os grupos nas avaliações de sono, memória, raciocínio ou qualidade de vida.
Os resultados sugerem que o SNT-4728 pode atuar em processos biológicos relacionados à inflamação e ao funcionamento motor. No entanto, os dados ainda não demonstram que o tratamento impeça a degeneração dos neurônios ou evite o surgimento da doença.
O que dizem os pesquisadores
O medicamento foi desenvolvido pela empresa australiana de biotecnologia Syntara. A pesquisa envolveu centros científicos de Oxford, no Reino Unido, e Sydney, na Austrália.
A médica e pesquisadora Lynsey Bilsland, responsável pelo programa internacional de desenvolvimento de medicamentos da Parkinson’s UK, destacou que a melhora motora observada em pessoas que ainda não receberam diagnóstico de Parkinson é um resultado encorajador para a investigação de novas terapias.
O professor Simon Lewis, da Universidade Macquarie, também ressaltou a relevância de identificar mudanças cerebrais após apenas três meses de tratamento.
Em pessoas com iRBD, o intervalo entre o aparecimento do distúrbio do sono e o desenvolvimento de uma doença neurodegenerativa pode durar mais de uma década. Por isso, a identificação de alterações biológicas antes dos sintomas clássicos é considerada uma área importante de pesquisa.
Medicamento ainda precisa de novos testes
Apesar dos resultados iniciais, o SNT-4728 continua em fase experimental. Os pesquisadores pretendem aprofundar as análises de sangue, líquido cefalorraquidiano e exames cerebrais dos participantes.
Estudos com um número maior de voluntários serão necessários para avaliar melhor a segurança do medicamento, confirmar sua eficácia clínica e determinar por quanto tempo os possíveis benefícios persistem.
Também será necessário investigar se o tratamento consegue retardar o aparecimento do Parkinson em pessoas com maior risco de desenvolver a doença. Essa possibilidade ainda não foi demonstrada pelo estudo atual.
Até o momento, não há previsão de quando o SNT-4728 poderá estar disponível para pacientes.


