Pesquisa da USP identificou relação entre consumo paterno de ultraprocessados e medidas corporais de recém-nascidos, mas ainda não comprovou causa e efeito
A alimentação do homem nos meses anteriores à concepção pode estar relacionada a características físicas do bebê ao nascer. Um estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) identificou uma associação entre o maior consumo paterno de alimentos ultraprocessados e medidas corporais dos recém-nascidos.
Os resultados apontaram uma relação entre o consumo desses produtos pelos pais e indicadores como peso ao nascer, índice ponderal e algumas medidas de adiposidade, relacionadas à quantidade de gordura corporal.
A pesquisadora Mariana Rinaldi Carvalho, responsável pelo estudo, destaca que os cuidados com a alimentação masculina podem começar pelo menos três meses antes da concepção. Esse período está relacionado à formação e à maturação dos espermatozoides.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo identificou associações, mas não comprovou que o consumo de ultraprocessados tenha causado as diferenças observadas nos bebês.
Como a alimentação paterna pode influenciar
Uma das hipóteses investigadas envolve mecanismos epigenéticos, processos que podem modificar a maneira como os genes são regulados sem alterar a sequência do DNA.
Segundo essa hipótese, fatores ambientais e hábitos de vida, incluindo a alimentação, podem influenciar características dos espermatozoides. Essas mudanças poderiam estar relacionadas aos primeiros estágios do desenvolvimento embrionário.
Outra possibilidade envolve o estresse oxidativo e os processos inflamatórios. Dietas com maior participação de ultraprocessados podem estar associadas a alterações metabólicas capazes de afetar a qualidade e a motilidade dos espermatozoides.
No entanto, esses mecanismos não foram avaliados diretamente pelo estudo. Por isso, ainda são necessárias novas pesquisas para determinar como essas possíveis alterações podem se relacionar ao desenvolvimento fetal e às características dos recém-nascidos.
Pesquisa também analisou a alimentação materna
O estudo avaliou o consumo de ultraprocessados entre homens e mulheres. Entre os participantes do sexo masculino, esses alimentos representaram, em média, 30% da energia consumida. Entre as mulheres, o percentual foi de 26%.
Na alimentação paterna, as principais fontes de ultraprocessados incluíram salsicha, bacon, bebidas açucaradas e bolachas. Entre as mães, apareceram com maior frequência hambúrgueres, refeições prontas, salgadinhos industrializados e batatas fritas industrializadas.
Ao comparar a alimentação dos pais com as medidas corporais dos recém-nascidos, os pesquisadores encontraram associações diferentes entre os dois grupos. O maior consumo paterno esteve associado a valores mais elevados em alguns indicadores de crescimento ao nascer. Já na alimentação materna, foi observada uma associação inversa com esses parâmetros.
Os pesquisadores ressaltam que esses resultados precisam ser interpretados com cautela. A diferença entre as associações não significa que o consumo materno de ultraprocessados seja benéfico ou que uma alimentação menos saudável durante a gestação favoreça o desenvolvimento do bebê.
Novos estudos são necessários
De acordo com Mariana Rinaldi Carvalho, os resultados levantam uma hipótese relevante sobre a possível participação da alimentação paterna no desenvolvimento fetal e neonatal. Entretanto, estudos maiores, com avaliação da dieta antes da concepção e acompanhamento ao longo do tempo, serão necessários para investigar essa relação.
A pesquisa também reforça a importância de considerar a saúde dos dois integrantes do casal no planejamento de uma gravidez. A alimentação equilibrada e outros hábitos saudáveis podem fazer parte dos cuidados antes da concepção, embora ainda não seja possível determinar, com base nesse estudo, o efeito específico da redução de ultraprocessados sobre as características do bebê.
A principal conclusão é que a alimentação paterna merece atenção nas pesquisas sobre saúde reprodutiva, mas a associação identificada pela USP ainda precisa ser confirmada e explicada por novas investigações.


