Tratamento experimental combina injeção ocular e óculos especiais; estudo identificou melhora na percepção visual de parte dos participantes
Uma terapia genética experimental permitiu que pessoas com cegueira avançada causada por uma doença hereditária voltassem a detectar objetos, localizar portas e acompanhar linhas no chão. A técnica combina uma injeção no olho com óculos especiais que transformam imagens do ambiente em estímulos luminosos para a retina.
Os resultados foram apresentados por pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica de Basileia, na Suíça. Publicado em 7 de outubro na revista científica New England Journal of Medicine, o estudo avaliou dez pacientes com retinose pigmentar em estágio avançado.
Segundo os pesquisadores, sete dos dez participantes apresentaram melhora na percepção da luz. Em seis deles, a evolução foi considerada clinicamente significativa. Além disso, quatro dos oito pacientes submetidos a testes específicos melhoraram a capacidade de detectar ou localizar objetos com o auxílio dos óculos.
Apesar dos resultados promissores, a técnica ainda não permite recuperar a visão normal. Os avanços observados, no entanto, indicam uma possibilidade de restaurar parcialmente a percepção visual em pessoas que perderam grande parte da capacidade de enxergar.
Como funciona o tratamento
A pesquisa foi realizada com pacientes que têm retinose pigmentar, uma doença genética que provoca a degeneração progressiva das células da retina responsáveis por captar a luz.
Nos estágios iniciais, a condição pode causar dificuldade para enxergar em ambientes com pouca iluminação e perda da visão periférica. Com a progressão da doença, a capacidade visual pode diminuir até chegar à cegueira.
A técnica utilizada pelos cientistas é chamada de optogenética. Ela consiste em modificar geneticamente determinadas células para que passem a responder à luz.
Durante o estudo, os médicos aplicaram uma única injeção no olho com pior visão de cada participante. O tratamento introduziu instruções genéticas para que células ainda preservadas da retina produzissem uma proteína chamada ChrimsonR, capaz de reagir à luz.
Após o procedimento, os pacientes utilizaram óculos equipados com uma câmera especial. O dispositivo capta imagens do ambiente e as converte em sinais luminosos que estimulam as células geneticamente modificadas.
Essas células transmitem informações ao cérebro, possibilitando que os pacientes percebam determinados elementos do ambiente, mesmo com a perda de outras células fundamentais para a visão.
Pacientes voltaram a localizar objetos
Durante os testes, alguns participantes conseguiram identificar a presença e a localização de objetos. Em determinadas tarefas, também demonstraram melhora na capacidade de encontrar portas e acompanhar linhas desenhadas no chão.
Os pesquisadores utilizaram exames para registrar a atividade cerebral e observaram sinais de que as informações visuais estavam chegando às regiões responsáveis pelo processamento da visão.
O treinamento também demonstrou importância para os resultados. Os participantes que praticaram mais com os óculos apresentaram tendência a um desempenho melhor nos testes de detecção de objetos.
A recuperação, entretanto, é limitada. Os pacientes não passaram a enxergar normalmente e o tratamento não permitiu recuperar habilidades complexas, como ler ou reconhecer rostos.
Técnica pode beneficiar pessoas com diferentes alterações genéticas
A retinose pigmentar afeta mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o mundo e pode estar associada a alterações em mais de cem genes diferentes.
Uma característica importante da abordagem experimental é que ela não depende da correção de uma mutação genética específica. Em vez disso, busca aproveitar células da retina que continuam vivas, mesmo após a perda das células originalmente responsáveis pela captação da luz.
O trabalho foi liderado pelos pesquisadores José-Alain Sahel, da Universidade de Pittsburgh, e Botond Roska, do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica de Basileia.
A equipe já havia apresentado, em 2021, resultados que indicavam a possibilidade de recuperar parte da percepção visual por meio da optogenética. A nova pesquisa amplia as evidências sobre a abordagem, embora ainda seja necessário confirmar seus benefícios em estudos maiores.
Segurança e próximos passos
A principal finalidade desta etapa da pesquisa foi avaliar a segurança do procedimento. A maioria dos efeitos adversos oculares observados foi classificada como leve ou moderada.
Os pesquisadores também registraram um episódio grave de obstrução temporária de uma artéria da retina, que foi resolvido em poucos minutos após atendimento médico.
Novos estudos serão necessários para avaliar a eficácia do tratamento em um número maior de pacientes, acompanhar possíveis efeitos a longo prazo e aperfeiçoar os equipamentos utilizados para converter imagens em estímulos luminosos.
A pesquisa recebeu financiamento da empresa de biotecnologia GenSight Biologics, responsável pelo desenvolvimento da terapia experimental.
Embora ainda esteja distante de devolver a visão normal, a técnica representa um avanço na busca por alternativas para pessoas com cegueira causada pela degeneração da retina. Os resultados iniciais indicam que, em determinadas condições, pode ser possível recuperar parte da capacidade de perceber o ambiente mesmo após uma perda visual severa.


