Uma pesquisa realizada na Universidade de São Paulo identificou que o rinovírus, principal causador do resfriado comum, pode permanecer por longos períodos nas amígdalas e adenoides, mesmo quando a pessoa não apresenta sintomas. O estudo indica que esses tecidos funcionam como reservatórios do vírus, permitindo transmissão silenciosa e possível origem de novos surtos.
A investigação analisou amostras de 293 crianças submetidas à cirurgia para retirada de amígdalas e adenoides. Mesmo estando assintomáticas no momento do procedimento, quase metade apresentou presença do vírus em pelo menos um dos três locais examinados: amígdala, adenoide ou secreção nasal.
De acordo com os pesquisadores, além de infectar o epitélio do nariz e da garganta, o rinovírus também atinge camadas mais profundas desses tecidos e consegue infectar linfócitos, células de defesa do organismo. Nessas células, o vírus pode permanecer em estado de persistência, sem provocar sintomas imediatos.
Os resultados foram publicados no Journal of Medical Virology. A pesquisa foi coordenada pelo professor Eurico de Arruda Neto, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, com apoio da FAPESP e colaboração de outros pesquisadores da instituição.
Transmissão silenciosa
Os cientistas destacam que a persistência viral pode ajudar a explicar surtos frequentes em ambientes escolares. Crianças que aparentam estar saudáveis podem carregar o vírus nas amígdalas e transmiti-lo ao retornar às aulas, iniciando cadeias de infecção.
Além do rinovírus, estudos anteriores do mesmo grupo já haviam identificado adenovírus, influenza A e SARS-CoV-2 nesses tecidos. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que tecidos linfoides, como amígdalas e adenoides, funcionem como reservatórios naturais de diferentes vírus respiratórios.
Possíveis impactos clínicos
Os achados também levantam questionamentos sobre diagnósticos em infecções respiratórias. A detecção do rinovírus em exames de secreção pode refletir uma infecção anterior persistente e não necessariamente o agente responsável pelos sintomas atuais.
Outro ponto em investigação é o possível impacto dessa persistência viral em pacientes imunossuprimidos. Há suspeita de que vírus já presentes no organismo possam ser reativados em situações de baixa imunidade.
Segundo os pesquisadores, novas etapas do estudo devem aprofundar a compreensão sobre o papel desses reservatórios virais e suas implicações para surtos, doenças respiratórias recorrentes e estratégias de prevenção.



