sábado, 28 fevereiro, 2026
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Estudo identifica cinco grupos genéticos que conectam 14 transtornos mentais

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Um dos maiores estudos já realizados sobre a base genética de transtornos psiquiátricos foi publicado na revista Nature e analisou variantes genéticas comuns em 14 condições. A pesquisa classificou esses transtornos em cinco grandes grupos que compartilham características biológicas entre si, o que pode contribuir para diagnósticos mais precisos e novas abordagens terapêuticas.

O trabalho foi conduzido por um consórcio internacional e contou com a participação de pesquisadores brasileiros, como Diego Luiz Rovaris, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), e Sintia Belangero, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), ambos apoiados pela Fapesp.

Segundo Rovaris, muitos transtornos psiquiátricos apresentam sintomas semelhantes, o que dificulta o diagnóstico clínico. A análise genética mostrou, por exemplo, que esquizofrenia e transtorno bipolar compartilham cerca de 80% das variantes genéticas comuns, sugerindo que podem representar um contínuo biológico.

Cinco fatores genéticos

Os pesquisadores organizaram os transtornos em cinco fatores principais:

Fator 1 – Transtornos compulsivos: inclui anorexia nervosa e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), além de associação moderada com síndrome de Tourette e transtornos de ansiedade.

Fator 2 – Psicóticos: engloba esquizofrenia e transtorno bipolar, com expressão genética relacionada a neurônios excitatórios e áreas cerebrais envolvidas no processamento da realidade.

Fator 3 – Neurodesenvolvimento: reúne transtorno do espectro autista (TEA), transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e, de forma moderada, Tourette. Os genes desse grupo se expressam principalmente nas fases iniciais do desenvolvimento cerebral.

Fator 4 – Condições internalizantes: envolve depressão, transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático. Nesse grupo, os genes mais associados estão ligados a células de suporte do cérebro, chamadas glia.

Fator 5 – Uso de substâncias: inclui transtorno por uso de álcool, dependência de nicotina, uso de cannabis e opioides. Esse fator apresentou maior associação com indicadores socioeconômicos, como renda e cognição.

A síndrome de Tourette foi a condição que menos compartilhou variantes genéticas com os demais transtornos, com 87% de características consideradas únicas. Também foi identificado o chamado “fator P”, conjunto de variantes comuns a todas as 14 condições analisadas.

Base de dados e método

O estudo utilizou dados genéticos de mais de 1 milhão de pessoas diagnosticadas com algum dos transtornos, comparadas a indivíduos sem condições psiquiátricas. A análise foi feita por meio do método conhecido como Estudo de Associação Genômica Ampla (GWAS), focado em polimorfismos de nucleotídeo único, variantes comuns com impacto relevante em doenças multifatoriais.

De acordo com Belangero, a maioria dos dados disponíveis ainda é de populações de origem europeia, o que limita a representatividade global. Pesquisadores brasileiros integram o Latin American Genomics Consortium (LAGC), afiliado ao Psychiatric Genomics Consortium (PGC), com o objetivo de ampliar a participação de populações latino-americanas em estudos genéticos.

Impacto para tratamentos

Os resultados podem auxiliar na busca por novos tratamentos, inclusive por meio do reposicionamento de medicamentos já aprovados para outras condições. A identificação de grupos genéticos comuns pode facilitar a adaptação de terapias entre transtornos com bases biológicas semelhantes.

Especialistas destacam ainda que muitas variantes genéticas associadas a transtornos mentais também se relacionam a traços considerados normais, como cognição, sono e comportamento social. De acordo com análise publicada na mesma edição da Nature, os transtornos tendem a surgir quando determinadas combinações genéticas e fatores ambientais se sobrepõem de forma desfavorável.

A pesquisa reforça que as condições psiquiátricas têm origem multifatorial e que a genética representa apenas parte da explicação, mas pode desempenhar papel relevante na compreensão e no manejo dessas doenças.

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