Pesquisa da USP aponta que novo método pode identificar a doença antes do surgimento de sintomas mais graves
Um exame de sangue combinado com um questionário clínico e uma ferramenta de inteligência artificial pode ajudar a identificar casos de hanseníase em estágios iniciais, antes do surgimento de lesões mais evidentes. O método foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e apresenta potencial para aprimorar o diagnóstico da doença no Brasil.
O estudo foi conduzido por cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e foi publicado na revista científica BMC Infectious Diseases. A pesquisa foi coordenada pelo professor Marco Andrey Frade.
Segundo os pesquisadores, a estratégia pode ajudar a superar dificuldades no diagnóstico precoce da hanseníase, especialmente em fases iniciais da doença, quando os sintomas ainda são discretos e os exames tradicionais apresentam baixa sensibilidade.
Como funciona o método
O sistema de triagem utilizado no estudo combinou duas ferramentas principais. A primeira foi um questionário clínico de suspeição de hanseníase (QSH), composto por 14 perguntas relacionadas a sintomas neurológicos. Esse questionário foi integrado a um sistema de inteligência artificial chamado MaLeSQs, que auxilia na análise das respostas.
A segunda etapa consistiu em um exame de sangue que identifica anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína associada ao bacilo responsável pela doença, o Mycobacterium leprae.
Nos exames convencionais, geralmente é analisado o antígeno PGL-I, considerado menos sensível em alguns casos. O novo teste avalia três classes de anticorpos (IgA, IgM e IgG), o que permite ampliar a capacidade de detecção e diferenciar exposição ao bacilo, infecção ativa e contato anterior com a bactéria.
Resultados da pesquisa
Para avaliar o método, os pesquisadores utilizaram amostras de sangue coletadas durante um inquérito sorológico da Covid-19 realizado em Ribeirão Preto.
Cerca de 700 pessoas foram convidadas a participar da pesquisa, das quais 224 responderam ao questionário digital e 195 tiveram amostras de sangue analisadas. Todas foram convidadas para uma avaliação clínica presencial com especialistas.
Entre os 37 participantes que compareceram à consulta, foram identificados 12 novos casos de hanseníase, muitos deles sem sintomas evidentes.
Segundo os pesquisadores, o anticorpo IgM contra o antígeno Mce1A apresentou o melhor desempenho entre os exames laboratoriais, identificando aproximadamente dois terços dos casos confirmados.
Quando os resultados laboratoriais foram combinados com o sistema de inteligência artificial, o método atingiu 100% de sensibilidade na identificação dos casos suspeitos, posteriormente confirmados em avaliação clínica.
Importância para a saúde pública
De acordo com os pesquisadores, o exame de sangue não substitui a avaliação médica, mas pode funcionar como ferramenta de triagem para indicar quais pacientes devem ser encaminhados para análise especializada.
A hanseníase é uma doença infecciosa que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo causar manchas na pele, perda de sensibilidade, formigamento e fraqueza muscular.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 200 mil novos casos da doença são registrados todos os anos no mundo. O Brasil ocupa a segunda posição global em número de casos, atrás apenas da Índia, concentrando cerca de 90% das notificações das Américas.
Próximos passos
Os pesquisadores pretendem ampliar os estudos para validar o método em escala maior, com o objetivo de possibilitar a incorporação da ferramenta ao Sistema Único de Saúde (SUS) e à rede de atenção básica.
Outra etapa do projeto busca aumentar a precisão do teste, analisando partes específicas da proteína Mce1A para desenvolver exames ainda mais sensíveis e com maior precisão diagnóstica.


