Pesquisa da Unesp e da Universidade de Birmingham encontrou substâncias tóxicas em 95% das amostras analisadas e aponta riscos para reciclagem sem triagem química
Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros identificou a presença de substâncias potencialmente tóxicas em resíduos sólidos que podem ser reaproveitados na fabricação de novos produtos. A pesquisa foi conduzida pelo Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICTS-Unesp), em Sorocaba, em parceria com a Universidade de Birmingham, no Reino Unido.
Os pesquisadores analisaram 207 amostras de resíduos provenientes de quatro categorias: resíduos de construção e demolição, veículos em fim de vida útil, estofados e artigos infantis.
As amostras foram coletadas na região metropolitana de Sorocaba, incluindo materiais provenientes de um centro de desmanche de veículos, aterro sanitário de resíduos de construção e demolição, associações de reciclagem e empresas que fabricam ou reformam estofados.
Substâncias foram encontradas em 95% das amostras
O estudo identificou ésteres organofosforados clorados, substâncias que foram utilizadas pela indústria como retardantes de chama e plastificantes.
Entre os compostos encontrados estão TCIPP, TDCIPP e TCEP.
Segundo os pesquisadores, esses produtos foram utilizados em materiais como espumas de poliuretano presentes em móveis e colchões, carcaças plásticas de equipamentos eletrônicos, artigos infantis e materiais de isolamento usados na construção civil.
Do total analisado, 95% das amostras continham pelo menos um dos compostos, ainda que em baixas concentrações. Em 13 amostras, os pesquisadores identificaram níveis considerados mais preocupantes.
A pesquisa foi desenvolvida pelo engenheiro ambiental David Burgos durante seu doutorado na Unesp.
Risco de contaminação na reciclagem
De acordo com os pesquisadores, a preocupação está relacionada principalmente ao reaproveitamento de materiais antigos sem uma análise prévia de sua composição.
A possibilidade levantada pelo estudo é que substâncias presentes em produtos antigos possam ser transferidas para novos materiais durante processos de reciclagem, além de permanecerem no ambiente.
A exposição pode ocorrer por contato direto com objetos que contenham esses compostos, pela ingestão ou pela inalação de poeira liberada durante a degradação dos materiais.
Os pesquisadores destacam que alguns desses compostos apresentam potencial de interferência nos sistemas endócrino e reprodutivo, além de potencial carcinogênico, conforme evidências citadas no estudo.
Brasil gera cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos
A pesquisa ganha relevância diante do volume de resíduos produzido no país. Segundo os pesquisadores, o Brasil gera aproximadamente 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano e é o segundo maior gerador das Américas.
Parte desse material é reaproveitada para a fabricação de novos produtos.
Para André Henrique Rosa, professor do ICTS-Unesp e orientador da pesquisa, a produção de dados sobre contaminantes presentes nos resíduos é importante para estabelecer estratégias de gestão segura e proteger trabalhadores envolvidos na reciclagem.
Segundo Rosa, quando a linha de pesquisa foi iniciada, praticamente não havia dados sobre contaminantes emergentes presentes nos resíduos brasileiros e latino-americanos.
Compostos substituíram outros retardantes de chama
Os pesquisadores também chamam atenção para uma mudança ocorrida na utilização de retardantes de chama.
Segundo o estudo, alguns retardantes bromados, reconhecidos como poluentes orgânicos persistentes e incluídos na Convenção de Estocolmo, foram substituídos pelos organofosforados clorados.
A pesquisa aponta que esses compostos não são regulados da mesma maneira e também apresentam características tóxicas.
A Convenção de Estocolmo é um acordo internacional criado para reduzir a exposição humana e ambiental a determinados poluentes orgânicos persistentes. O Brasil é signatário desde 2004.
Pesquisadores defendem triagem antes da reciclagem
David Burgos afirma que a reciclagem precisa ser acompanhada de mecanismos capazes de identificar materiais que contenham contaminantes.
Segundo ele, apenas impedir a fabricação de novos produtos com determinadas substâncias não elimina os materiais antigos que ainda estão em circulação.
A preocupação é que esses produtos sejam reciclados sem análise ou tratamento adequado e que os contaminantes acabem incorporados a novos materiais.
O pesquisador defende que a questão seja considerada nas políticas de economia circular, especialmente nos processos de reciclagem e logística reversa.
Órgãos têm responsabilidades diferentes
Segundo a pesquisa, a responsabilidade pela gestão e fiscalização dos resíduos envolve diferentes órgãos.
No âmbito federal, o Ibama atua dentro do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama). Órgãos estaduais, como a Cetesb, participam do licenciamento e da fiscalização dos geradores, enquanto os municípios são responsáveis pela gestão local dos resíduos.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) também estabelece responsabilidades para os próprios geradores quanto à caracterização e ao monitoramento dos resíduos.
Procurado pela reportagem, o Ibama informou que a atribuição relacionada à triagem dos materiais cabe ao Grupo de Acompanhamento de Performance, formado por entidades representativas, em âmbito nacional, de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de produtos eletroeletrônicos.
A Cetesb não havia respondido ao contato até a publicação da reportagem.
Ministério do Meio Ambiente cita equipamentos antigos
Em nota, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou que o uso de PBDEs, retardantes de chama bromados, na fabricação de novos aparelhos eletroeletrônicos já é proibido no Brasil em razão dos acordos internacionais.
Segundo a pasta, a preocupação atual está principalmente relacionada a equipamentos antigos, como televisores e monitores de tubo fabricados antes de 2005.
O Brasil permite, por lei, a reciclagem desses materiais antigos até 2030.
O ministério informou ainda que os mecanismos de logística reversa existentes oferecem estrutura para coleta, triagem, rastreabilidade e destinação de resíduos eletroeletrônicos, mas não estabelecem um protocolo específico para testar a presença de PBDEs.
O estudo foi publicado com o título “Chlorinated organophosphate esters in Brazilian solid waste: concentrations, national load estimates, and regulatory implications for a circular economy”.


