terça-feira, 30 junho, 2026
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Vacina da gripe é atualizada anualmente com base em rede global de vigilância do vírus influenza

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Todos os anos, antes do início da campanha de vacinação contra a gripe, cientistas de diferentes países precisam responder a uma pergunta central: quais cepas do vírus influenza terão maior probabilidade de circular nas próximas temporadas nos hemisférios Norte e Sul. A resposta é construída por uma extensa rede global de vigilância que monitora a evolução do vírus e orienta a composição das vacinas, incluindo a versão trivalente produzida pelo Instituto Butantan e distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo a pesquisadora Isabela Carvalho Brcko, especialista em vírus respiratórios e pós-doutoranda do Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS) do Instituto Butantan, o trabalho é coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e envolve centenas de laboratórios distribuídos por mais de 130 países. De acordo com dados da OMS, cerca de um bilhão de casos de gripe sazonal ocorrem anualmente no mundo, dos quais entre três e cinco milhões podem evoluir para quadros graves.

Existem três tipos de vírus influenza, A, B e C, mas apenas os dois primeiros provocam epidemias sazonais. O influenza A é classificado conforme a combinação das proteínas hemaglutinina e neuraminidase em sua superfície, sendo os subtipos A(H1N1) e A(H3N2) os que circulam amplamente entre humanos. Já o influenza B se divide nas linhagens Victoria e Yamagata, sendo que a segunda não apresenta registros de circulação desde 2020, possivelmente em razão das restrições sanitárias impostas pela pandemia de Covid-19.

O vírus influenza tem rápida capacidade de mutação, especialmente na região do epítopo da hemaglutinina, responsável pelo reconhecimento das células do hospedeiro. Segundo Isabela Brcko, o subtipo A(H3N2) apresenta ritmo de mutação mais acelerado que o A(H1N1), enquanto o influenza B muda de forma mais lenta. Essas mutações acumuladas ao longo do tempo podem fazer o vírus escapar da resposta imunológica, originando novas variantes e exigindo atualizações constantes da vacina.

A vigilância global do influenza é conduzida desde o final da década de 1940 pela OMS, atualmente por meio do Sistema Global de Vigilância e Resposta à Gripe (GISRS), que reúne laboratórios em mais de 130 países. O Brasil contribui com 27 Laboratórios Estaduais Centrais de Saúde Pública e três laboratórios de referência credenciados junto à OMS: a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, e o Instituto Evandro Chagas, no Pará.

O monitoramento começa em unidades de saúde chamadas sentinelas, que coletam amostras de pacientes com síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave. Parte dessas amostras é enviada aos laboratórios estaduais para identificação inicial e, posteriormente, aos laboratórios de referência para análises mais aprofundadas. Os dados brasileiros são compartilhados com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, referência nas Américas, que consolida as informações da região e as encaminha à OMS.

Com base nos dados reunidos de diferentes continentes, a OMS define duas vezes ao ano as cepas que devem compor as vacinas, cerca de seis meses antes do início de cada campanha, para dar tempo hábil aos fabricantes. Para a campanha de 2026 no hemisfério Sul, foram selecionadas as cepas A/Missouri/11/2025 (H1N1), A/Singapura/GP20238/2024 (H3N2) e B/Áustria/1359417/2021 (linhagem Victoria), sendo as duas primeiras atualizadas em relação ao ano anterior.

O Instituto Butantan, responsável pela produção de mais de 80 milhões de doses anuais da vacina contra a gripe, inicia a fabricação imediatamente após os anúncios da OMS, já que produz formulações para os dois hemisférios. Desde março de 2026, o imunizante está disponível nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país, enquanto os estados da região Norte recebem a vacina com a composição do hemisfério Norte, em campanha realizada no fim do ano devido a particularidades climáticas locais.

Embora o público prioritário inclua crianças, gestantes, puérperas e idosos, estados como São Paulo, Goiás e Ceará liberaram a vacina para toda a população a partir dos 6 meses de idade, diante da baixa cobertura vacinal registrada no país. Segundo o Ministério da Saúde, pouco mais de 40% dos grupos prioritários haviam recebido o imunizante em 2026.

O Instituto Butantan também atua na vigilância genômica do vírus influenza por meio do CeVIVAS, projeto iniciado em 2022 que complementa a rede oficial da OMS. Estudos do centro identificaram que a região Sudeste tem papel central na disseminação do vírus pelo Brasil, e que o país atua como exportador do influenza para outros países da América do Sul.

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