Pesquisadores detectaram espécies patogênicas do fungo Sporothrix, causador da esporotricose, nos órgãos internos de animais silvestres atropelados em rodovias do Paraná. O fungo, normalmente associado à transmissão entre gatos domésticos, provoca lesões na pele e pode contaminar humanos, afetando inclusive o sistema linfático. O estudo, apoiado pela Fapesp, foi publicado em março na revista científica Mycopathologia.
Foram identificadas três espécies do gênero Sporothrix, incluindo a Sporothrix brasiliensis, exclusiva do Brasil, além das espécies S. globosa e S. schenckii, esta última a mais frequente entre os animais analisados. Segundo Anderson Messias Rodrigues, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e coordenador do estudo, os resultados indicam que o fungo circula entre animais silvestres além do esperado, representando potencial risco à saúde humana e animal.
De acordo com Steffanie Skau Amadei, primeira autora do estudo e doutoranda na Universidade McGill, no Canadá, a pesquisa não confirmou infecção ativa por meio de exames histopatológicos, mas detectou o DNA do fungo em tecidos internos como fígado e coração, indicador de que o patógeno circula no organismo dos animais.
O estudo também identificou maior incidência do fungo em regiões de transição entre áreas nativas, rurais e urbanas, onde animais silvestres têm mais contato com espécies domésticas. Segundo Rodrigues, a pesquisa expande o entendimento sobre os reservatórios do fungo, que vão além dos animais domésticos, refletindo a crescente interação entre ambientes rurais, urbanos e silvestres provocada pela atividade humana.
As carcaças analisadas foram coletadas entre 2017 e 2023 em duas rodovias do Paraná, a BR-376 e a PR-445, como parte de um projeto sobre o potencial de animais silvestres como sentinelas de zoonoses, liderado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2016. Ao todo, foram analisadas 178 amostras de tecidos de 81 animais, entre mamíferos, aves e répteis.
O DNA de espécies patogênicas de Sporothrix foi detectado em 11 animais das três classes estudadas, com maior frequência nos tecidos do coração e do fígado. A espécie S. schenckii foi encontrada em sete animais, incluindo aves, mamíferos e uma cobra-coral-falsa. Já a S. brasiliensis foi identificada em duas aves, enquanto a S. globosa, mais rara no país, foi detectada em uma cutia, em aves e na coral-falsa.
Segundo Amadei, os resultados também contrariam a ideia de que aves estariam protegidas de fungos patogênicos por sua alta temperatura corporal, já que as espécies identificadas no estudo demonstraram resistência a essas condições.



